Conhecendo o gênero - Redação para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM)
- Aline de Leon
- 24 de mar.
- 5 min de leitura
Atualizado: 1 de abr.
O Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM
Para entender o gênero discursivo Redação modelo Enem - Exame Nacional do Ensino Médio, precisamos entender um pouco mais sobre o exame. Hoje, o Exame Nacional do Ensino Médio é uma prova utilizada para ingresso no ensino superior, porém tal prova foi criada em 1998 com o intuito de avaliar o desempenho dos alunos ao fim da educação básica. A partir de 2004, essa prova passou a ser uma das formas de ingresso nas Universidades pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e, a partir de 2010, tornou-se a maior prova de seleção do país.
O modelo elaborado consiste em duas provas divididas em dois domingos, sendo a primeira etapa denominada “Ciências Humanas e Linguagens” constituída de três partes: a primeira parte é a Redação dissertativa-argumentativa, a segunda comporta 45 questões de múltipla escolha de Linguagens e Códigos, que engloba língua portuguesa, literatura e língua estrangeira moderna já a terceira compõem-se de 45 questões de Ciências Humanas, que versam sobre Geografia, História, Filosofia e Sociologia. A segunda etapa é a parte do exame em que os estudantes respondem a questões de Matemática e Ciências da Natureza resolvendo 45 questões de Matemática, 45 questões de Ciências da Natureza, também de múltipla escolha.
Esse formato remete a diversas reflexões sobre as características que englobam a prova, tais características bastante criticadas por professores e alunos por se tratar de uma prova de múltipla escolha, extensa, bem como, a redação propriamente dita. Os modelos engessados de avaliação passam por um tolhimento dos gestos de interpretação do aluno e nos leva a um efeito de possibilidade único de resposta. Tais aparelhos avaliativos, como muitos outros instaurados pelas esferas governamentais, deixam de lado o caráter ideológico e opaco da linguagem como observam as autoras Rasia et al. (2017, p.334):
A questão central que nos toca, a partir da concepção de leitura mobilizada pela teoria que dá sustentação a este estudo, a Análise do Discurso francesa, com filiação em Michel Pêcheux, são as contradições que decorrem do formato da prova objetiva, de múltipla escolha, típica do ENEM mas também de outras formas de avaliação. Se a condição da interpretação é a abertura do sentido, em que pesem os limites do sentido, fica em suspenso, neste caso, o que resta nos interstícios das alternativas de múltipla escolha. (Rasia,2017,p.334)
Ainda no que tange às provas modelo Enem, cabe ressaltar que a questão da linguagem está vinculada à historicidade e esta é crucial para as questões interpretativas, deixar de fora quesito deveras importante prejudica substancialmente as diversas possibilidades interpretativas. Na redação, que no nome já traz um conceito de redigir um texto, tal escolha em detrimento à escolha mais adequada que seria “produção textual”, nos traz a ideia de tolhimento da criatividade do gesto argumentativo, limitando as noções de autoria e assunção de sujeito-aluno na escrita do texto. Vejamos os itens avaliativos da correção, segue um quadro avaliativo dividido em 5 competências segundo a cartilha do INEP 2024, competências de escrita e com propriedades bastante particulares de avaliação.
"Competência 1: Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.
Competência 2: Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa.
Competência 3: Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.
Competência 4: Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação.
Competência 5: Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos."
Cartilha do Participante - Inep
As competências 2 e 3 traremos de forma mais detalhada para compreendermos seus aspectos segundo a cartilha do participante (INEP, 2024):
O segundo aspecto a ser avaliado no seu texto é a compreensão da proposta de redação, composta por um tema específico a ser desenvolvido na forma de texto dissertativo-argumentativo — ou seja, a proposta exige que o(a) participante escreva um texto dissertativo-argumentativo, que é um texto em que, por meio de argumentação, se faz a defesa de uma ideia ou de um ponto de vista. É mais do que uma simples exposição de ideias; por isso, você deve evitar elaborar um texto de caráter apenas expositivo, devendo assumir claramente um ponto de vista. (cartilha do participante, 2024, INEP)
A competência 2 traz claramente que o texto precisa conter um ponto de vista do aluno, uma posição que deve ser assumida embasada em “seus conhecimentos prévios” sobre o tema, o argumento, elemento o qual estamos abordando nesta dissertação e que é parte fundamental na Redação do Enem. A competência exige que o aluno tenha um posicionamento que seja pertinente ao tema abordado e que essa posição seja sustentada pelo que eles chamam de “Repertório sociocultural” que se configura como “uma informação, um fato, uma citação ou uma experiência vivida que, de alguma forma, contribua como argumento para a discussão proposta” (INEP, 2025, p.15).
Já a competência 3 nos leva para a organização dos argumentos que serão sustentados no texto, a competência orienta que o aluno faça um projeto de texto para seu controle que relacione os argumentos que serão usados de forma sucinta e os repertórios que serão usados para sustentar esses argumentos.
No que tange à correção da redação, as orientações indicam o seguinte funcionamento da correção da prova: cada redação receberá uma nota que variará entre 0 (zero) e 1.000 (mil) pontos, obedecerá à Matriz de Referência do exame. O texto será avaliado por 3 professores formados em Letras sem que um saiba a nota do outro. Cada avaliador(a) atribuirá uma nota entre 0 (zero) e 200 (duzentos) pontos para cada uma das cinco competências. A nota total de cada avaliador(a) corresponderá à soma das notas atribuídas a cada uma das competências e a soma desses pontos comporá a nota total de cada avaliador(a), que poderá chegar a 1.000 pontos. A nota final do(a) participante será a média aritmética das notas totais atribuídas pelos(as) dois(duas) avaliadores(as).
Os aspectos abordados na correção remetem muito mais a uma marcação do gênero textual dissertativo-argumentativo do que a possibilidade de avaliar a criatividade ou a autoria do aluno. Da mesma forma que as questões de múltipla escolha não permitem outros gestos de interpretações possíveis que não aquele elegido como a resposta certa, a prova de redação não favorece a aparição de marcas autorais por focar excessivamente em seguir uma estrutura que pode levar os alunos a abordagens superficiais dos temas, o que compromete a consistência da argumentação. Quando falamos numa avaliação analítica e não holística do texto, compreendemos que os aspectos formais são mais valorizados em detrimento de uma avaliação que pressupõe o texto como um todo, uma unidade significativa.
Ao pressupor uma prática docente baseada na crítica e na construção de um sujeito-autor, as condições de produção remetem a múltiplos sentidos, que são produzidos a partir da historicidade e da(s) formação(ões) discursiva(s) dos sujeitos envolvidos. A intenção ao trabalhar o texto sob a perspectiva da AD é conduzir o aluno para análise, reflexão e tomada de posição, vinculando-se a uma formação discursiva com o efeito da autoria.




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